Por Mariana Bechert

Uma das questões que mais preocupa os intercambistas, entre eles os brasileiros, é o de casos de péssimas condições de trabalho quando se opta por ser Au Pair aqui na Irlanda. A profissão não é regulamentada pelo governo, e por isso patrões e empregados não precisam pagar impostos. Apesar de ser bom para os dois lados, essa situação acaba gerando situações em que o governo não pode interferir, como pagamento abaixo do salário mínimo irlandês e situação em que o empregado é maltratado ou faz muita coisa que não condiz com o dever de um Au Pair.

A brasileira Liane Jung dos Santos, de 25 anos, ao decidir vir para Dublin aprender a falar inglês, tinha optado por não trabalhar com crianças, pois ouviu falar que era um trabalho onde os empregados eram muito explorados. No fim das contas, em função da necessidade de arranjar um trabalho, se cadastrou no site www.gumtree.com, e está há quatro meses como Live-in na mesma família, que é Filipina.

Live In

Apesar de morar na casa, ela trabalha de três a quatro dias por semana, e sua escala muda regularmente, pois a mãe da criança é enfermeira. Liane relata que nunca precisou cozinhar, e que quando ajuda nas tarefas domésticas é porque gosta, e não por um pedido de sua empregadora. Para a estudante, um dos melhores benefícios nesse trabalho é aprender inglês, os costumes e a cultura.

Outro benefício citado é não ter gasto com alimentação e com moradia. Para ela, seria necessário um esforço do governo irlandês para impor regras e fazer com que a profissão seja regulamentada, tenha controle e uma fiscalização, evitando péssimas condições e um ambiente ruim de trabalho. “Eu tive sorte ao encontrar essa família”, finaliza. No caso de se morar com a família, a Au Pair recebe semanalmente, ou mensalmente, um valor pré-combinado.

Live Out                                                                                                                              

Já Samara de Salvi, de 24 anos, também brasileira, trabalha como Au Pair Live Out há um mês e meio em Dublin. Nas segundas e sextas, cuida de uma criança de cinco anos, e nas terças, quartas e quintas de três crianças de cinco, sete e dez anos. A primeira família é mexicana e a segunda é inglesa.

Nas três horas do dia em que ela fica com as crianças, sua principal função é ajuda-las com as tarefas de casa e orientá-las com jogos. Quando está somente com um dos meninos a orientação da mãe é para que ela converse e estimule seu desenvolvimento, já que ele tem dificuldade em acompanhar o conteúdo escolar. Quanto à relação com suas chefes, Samara relata que são muito educadas com ela, e seu pagamento é realizado semanalmente.

O pagamento de uma Au Pair Live Out na Irlanda é melhor do que o Live In, pois é por hora. Apesar disso, menos horas contabilizadas, pois isso acaba se tornando uma despesa alta para a família. Enquanto o valor do salário mínimo na Ilha Esmeralda é de 9,15 euros por hora, desde o início deste ano, Samara recebe acima da média, alcançando 10 euros por hora. Para ela, a regulamentação da profissão seria uma segurança para quem trabalha na área.

Experiência

A francesa Clara Charvieux, de 20 anos, também nunca teve problemas enquanto foi Au Pair por um ano aqui em Dublin. Tem conhecidas que tiveram experiências ruins com essa profissão, e acredita que essas condições só irão terminar quando o governo irlandês criar leis mais específicas para o trabalho.

Ela acredita que um dos fatores que faz com que cada vez mais famílias, principalmente irlandesas, busquem profissionais que aceitem receber um valor abaixo do mínimo, é o alto custo que é necessário pagar para creches no país. Além disso, em muitos casos a profissional não somente cuida das crianças, mas acaba limpando a casa e precisando fazer um trabalho mais pesado.

pshicologaPara a família, é mais barato e benéfico contratar alguém para estar disponível o tempo inteiro e ainda arrumar a casa e realizar outras ordens dadas pelos empregadores. Clara ainda relata que isso só acontece porque há muitos estrangeiros precisando de emprego aqui. Sem saber das condições e dos valores, eles agarram a oportunidade.

Diferente de brasileiros que vêm para Dublin aprender inglês e tentar juntar dinheiro, a francesa buscou ser Au Pair por ter uma experiência de vida diferente. Ela chegou na Irlanda sabendo a língua, e como realizava trabalhos sociais em seu país, muitas vezes a mãe das crianças que cuidou perguntava a ela se era uma boa mãe e se sua didática era boa com as crianças.

Uma das questões levantadas pela alemã Lina Engeer, de 22 anos, que trabalhou como Au Pair Live In por um ano e meio, é a questão da privacidade. “Você mora na casa de outra pessoa, e precisa seguir as regras da casa, pois não é sua casa”. Conforme ela, algumas famílias são mais tranquilas e aceitam que amigos te visitem ou que você realize alguma festa, mas isso varia conforme as regras e a relação que o trabalhador terá.

Apesar de gostar muito de crianças, depois de um tempo ela, Clara e a brasileira Jackeline, que se conheceram por trabalharem na mesma região como Au Pair, decidiram buscar outras experiências profissionais e ter uma privacidade maior, tendo a sua própria casa.

Para Lina, outra questão importante sobre cuidar de crianças é que é preciso impor limites e mostrar para a criança quem deve estar no controle. “Você precisa ser amigo, ouvir o que ela tem a dizer, e ao mesmo tempo impor limites e fazer com que elas a respeitem”, relata.

A rotina

Jackeline Araujo, de 29 anos, está há um ano e meio em Dublin, e como a maioria dos brasileiros, escolhe o intercâmbio para aprender a língua. Após os seis primeiros meses de curso de inglês, estava decidida a retornar ao Brasil, mas conseguiu uma indicação para ser Au Pair. Trabalhou como Live In e Live Out. Para ela, além da privacidade, outra vantagem do Live Out é o pagamento por hora, o que soma um valor melhor para as profissionais no fim de mês. Seus patrões eram da Venezuela, e sempre tiveram uma boa relação com ela.

 

Saiba mais

– Casos de péssimas condições de emprego vêm sendo investigados desde 2011 na Irlanda.

– Au Pairs deveriam ser enquadradas como Domestic Workers, para evitar casos de exploração.

– O governo irlandês reconheceu que as Au Pairs possuem direitos trabalhistas desde que estejam legalmente empregadas numa relação empregador-empregado, independentemente do título recebido.

– Para ter seus direitos reconhecidos como Au Pair procure o Migrant Rights Centre Ireland. Os casos são registrados anonimamente e quem procura a justiça e apresenta alguma reclamação contra o empregador tem uma lei que impede demissão por retaliação.

 

Fotos: Mariana Bechert

Liane Jung

Legenda: A brasileira Liane é Au Pair Live In em uma família Filipina e trabalha de três a quatro dias por semana

 

Au Pairs

Legenda: Apesar de ouvir muitas histórias de pessoas que passaram por experiências ruins como Au Pair, Jackeline Araujo, Clara Charvieux, Lina Engeer e Samara de Salvi tiveram ‘sorte’ nas famílias em que trabalharam cuidando de crianças