Religiosidade está em segundo plano na festa do padroeiro

A comemoração do padroeiro da Irlanda “São Patrício” é muito maior do que vestir-se ou pintar-se de verde e pode ser considerada mais de caráter nacionalista do que propriamente religioso hoje em dia. O 17 de março tornou-se um evento internacional, talvez pelo fato da grande emigração dos irlandeses na época da Grande Fome no sec. XVIII, criando raízes por todas as partes do mundo. Portanto esta data não é festejada somente na “Ilha Verde”, as comunidades Irlandesas que estão espalhadas, seja nos Estados Unidos, Canadá, Argentina, Austrália, Nova Zelândia, Montserrat ou mesmo no Brasil se unem nesta época para celebrar e afirmar e orgulho de ser Irish. “Eles querem lembrar e salientar: – nós somos irlandeses neste lugar cheio de outros”, ressalta o padre irlandês, Pat Mc Namara. Estima-se que mais de seis milhões de Irlandeses emigraram entre 1845 e 1950 e hoje cerca de 40 milhões vivem somente nos Estados Unidos, ou seja, tem mais Irish lá do que no próprio País, que conta recentemente com uma população de no máximo 6 milhões.

 Celebração pelo mundo

A celebração somente tornou-se um feriado público no ano de 1903, mas as primeiras paradas de São Patrício aconteceram ainda no século XVIII, quando trabalhadores imigrantes irlandeses marcharam neste dia para fazer declaração política e reivindicar melhores condições de vida e emprego nos Estados Unidos.  Segundo Pat Mc o desfile em Nova York – que atualmente é o mais famoso do mundo – foi organizado com o intuito de mostrar a quantidade de irlandeses que moravam lá, visto que o governo local estava elaborando leis que iriam prejudicá-los. “Alguém teve esta idéia, a de mostrar quantos irlandeses tinha de fato na cidade e dizer que se estas medidas fossem postas em prática, prejudicariam milhares de pessoas”, diz ele.

Ele acredita que a comemoração também seja grande na Austrália porque lá vivem milhares de descendentes de irlandeses. “Muitos foram deportados por serem criminosos perante a lei criminal da Irlanda. Qualquer um que roubasse um pedaço de pão ou um par de sapatos, por exemplo, era detido e transportado para aquele País, por isso é muito comum os irlandeses terem parentes que moram naquele continente”, explica Pat Mac.

Na Irlanda, o primeiro grande evento realizado em nome do seu padroeiro aconteceu no dia oficial do Santo em 1996: o “Saint Patrick’s Festival”. O evento foi impulsionado pela economia em ascensão na década de 90 e atualmente conta com uma vasta programação de eventos culturais durante toda a semana (veja http://www.stpatricksfestival.ie). Mesmo assim o sacerdote irlandês assegura que os “Irish que residem fora celebram mais este dia do que os que vivem no próprio País”.

É engraçado como esta tradição ficou popular, até os Simpsons – do desenho animado – já participaram desta festividade, em diversos episódios (assista http://www.youtube.com/watch?v=f9bZ7D8ukNY).

 

Brasil

 

Embora não haja tantos irlandeses vivendo no Brasil, como em outros lugares, eles se encontram principalmente nos pubs das capitais para confraternizar e “bebemorar”, com tradicionais atrações que relembram a Irlanda, com bandas de música folclórica e comida típica. Digo “bebemorar”, pois o dia de São Patrício sempre acontece na quaresma – período que alguns católicos fazem jejuns – e segundo o irlandês e professor da língua Gaélica, Frainc Ó Broin, há uma tradição que somente neste dia os irlandeses se sentem liberados para se embriagarem e aliviar-se das promessas. Talvez esta seja uma boa desculpa para eles que são apaixonados por uma boa cerveja e adoram festejar.

Ao contrário da Irlanda, o brasileiro comemora a data da padroeira do Brasil – Nossa Senhora Conceição Aparecida – com muita religiosidade, segundo disse o padre Pat Mc Namara. Ele viveu no Brasil nas décadas de 70 a 90 e trabalhou em várias capitais na Campanha da Fraternidade e participou de perto da cultura religiosa local. “Quando trabalhava em São Paulo, todos os anos eu tinha que ir a Aparecida. Os padres – por sua vez – tem um impacto enorme na vida dos brasileiros, porque muitas pessoas que não vão à basílica acompanham as missas e as devoções pela rádio e TV. Eu vi a Sala das Promessas, têm milhares de pessoas que deixaram vestidos de noiva, braços e pernas de cera, documentos de trabalho, em agradecimento a graça que receberam com a intercessão da Nossa Senhora”.

Simbolismo da festa

Originalmente, o dia de São Patrício era dedicado à lembrança do sacerdote, mas com o tempo tornou-se uma ocasião religiosa importante, com missas e outras atividades litúrgicas, finalmente passando a fazer parte do calendário cristão na primeira década dos anos 1600. Pat Mc Namara concorda que religiosidade ainda esta inserida na comemoração do padroeiro da Irlanda, mas para ele atualmente a festa no mundo é um momento de celebrar o fato de ser irlandês, é um momento de confraternização. “É uma festa familiar e nacionalista também. De fato, a parte religiosa está em segundo plano. Agora o momento é para celebrar a prosperidade e a criatividade, de celebrar a Cultura Irlandesa de um modo geral”, finaliza.

 

 

O Missionário Cristão

 

O missionário cristão São Patrício foi enviado a Ilha em 432 d.C – pela Igreja Romana – para evangelizar os chamados povos Celtas.

Quando aqui chegou encontrou um povo dominado pelas crenças nos deuses da Natureza. Nesta época, os reis e os sacerdotes – conhecidos como druidas – exerciam total poder sobre o povo. “Estes dois tinham muita proximidade, andavam de mãos dadas um com o outro, o poder do rei e do sacerdote era muito semelhante”, explica o padre irlandês Pat Mac Namara. Em cada reinado existia um druida que cuidava daquela aérea. Eles eram muito respeitados e influentes na sociedade.

Os druidas afirmavam que eram descendentes dos deuses da natureza e que tinham poderes de controlar a fertilidade da terra e do tempo – fazer ou parar a chuva. Devido à grande sabedoria adquirida em Ciência, conheciam poções para soluções de doenças físicas e espirituais e eram grandes alquimistas e conhecedores da linguagem das estrelas. Os druidas em seus rituais sagrados invocavam forças visando os mais diversos fins, quer estes fossem negativos ou positivos, isto dependia do tipo de ritual e das intenções das pessoas que deles participavam, sendo estas atividades vistas como pagãs aos olhos da Igreja Católica.

São Patrício inteligentemente se aliou aos reis, tentando assim tirar a força dos sacerdotes. Ele começou a destruir a influência dos druidas, destruindo o sagrado lugar das pessoas e iniciando a construção de igrejas e mosteiros. Em vez de ouvir os ensinamentos e conselhos dos druidas, as pessoas começaram a ouvir os ensinamentos de Roma. Como os druidas não deixaram a sua tradição escrita, com a sua morte a sua influência foi quebrada e esquecida.

Segundo o padre Pat Mac, o missionário São Patrício usou mesmo a folha do Trevo de três folhas para ensinar a Santíssima Trindade – agora considerado como símbolo nacional do Pais -, mas é somente uma lenda que ele espantou as cobras da Irlanda. “Cientificamente é comprovado que nunca existiram serpentes na Ilha”, sorri o padre. Talvez esta seja uma metáfora histórica, pois São Patrício veio para a Irlanda para abolir com as tradições pagãs e – na época – o símbolo dos druidas era a Serpente. Talvez seja esta a razão também que ele aparece esmagando esse animal com seu cajado.

A maior parte do que se sabe sobre São Patrício vem dos documentos que ele escreveu no final da sua vida, principalmente a “Confissão” – considerado como uma autobiografia espiritual. “Neste livro ele contou como era a sua vida e que ele se achava um pecador, pois quanto mais ele fazia, mais se considerava pequeno diante de Deus. Apesar de ser herói perante os irlandeses, ele citou que tudo dependia da vontade de Deus”, explica Pat Mac.

São Patrício trabalhou durante cerca de 30 anos como missionário cristão na Irlanda e, digamos, ele teve êxito na sua missão, já que hoje a maioria da população é de católicos na atualidade. Não se sabe ao certo a data de sua morte, alguns dizem que foi no ano 493, mas uma data anterior de 461 parece mais provável. A tradição diz que ele morreu em Saul e foi enterrado em na cidade de Downpatrick, na Cathedral Hill.

Colaboradora – Sandra Ferraz Walsh

OBS: Legendas da foto do Padre a seguir

1 – Padre irlandês, Pat Mc Namara “É uma festa familiar e nacionalista também. De fato, a parte religiosa está em segundo plano.”

 

2- Trevo de 3 folhas hoje é símbolo Nacional da Irlanda

 

3 – São Patrício inteligentemente se aliou aos reis para tirar a força dos druidas

 

4 – Irlandeses se vestem da cores da bandeira para celebrar o dia do padroeiro